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Brasil: campeão de cesáreas. Cruzes!
Maria Flor fala sobre o aumento no número de partos cirúrgicos no país
Eu fiquei passada, vocês não? Estou falando da notícia de que, no Brasil, o número de cesáreas ultrapassou o número de partos normais. Isso nos afasta cada vez mais da média ideal estipulada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que recomenda que apenas15% dos partos sejam cesarianas. Gente, 15%!!!
É difícil saber ao certo porque estamos tão longe da média. Me lembro do meu primeiro parto, no Rio. Minha filha nasceu às 9h06, da segunda-feira, 22/01/2007. Nessa data, na mesma maternidade, nasceram 12 bebês. Minha filha foi a única que veio ao mundo de parto normal. Desde então, fico pensando no que pode elevar tanto o número de cesáreas (pelo visto, em sua maioria, desnecessárias) no nosso país. De cara, penso em alguns motivos e logo vou dando meu pitaco à respeito:
Comodidade do médico ou da parturiente
Um parto normal é um processo fisiológico, que pode demorar muitas horas. Os meus demoraram 32 horas (!) o primeiro e 12 horas o segundo. Que médico tem disponibilidade para ficar esperando? Agora, pergunto: se o trabalho de parto está correndo bem, é o médico que tem que ficar ao lado da mulher durante todo esse tempo? Não, claro que não. Para isso existem as doulas, o pai da criança, ou quem quer que a mulher deseje que esteja ao seu lado, enquanto as contrações vão cumprindo seu papel de dilatar o colo do útero para a passagem do bebê. Outra coisa: parto normal não marca hora. O trabalho de parto pode começar com a mulher na 37ª semana de gestação ou até na 42ª! Já uma cesárea, pode ser com hora marcada e demora, em média, 50 minutinhos... Tente chegar numa sexta-feira, em pleno trabalho de parto, para ver se consegue um quarto na maternidade. Provavelmente, estarão todos ocupados, por mulheres que marcaram a cesárea. Assim, podem receber visitas no fim de semana e o médico também garante sua folga.
Medo das mulheres
É certo, o parto é um momento desconhecido, até para quem já pariu. E é comum sentir medo do que não conhecemos. Mas, desde que o mundo é mundo as mulheres dão à luz, não é? Nosso corpo é preparado para isso. Mas, de uns tempos para cá, parir virou um ato hospitalar e cheio de procedimentos. As novelas e os filmes também não ajudam, já que as mulheres aparecem sempre gritando, em desespero. Então, acho que é comum pensar “ah, vou lá, faço uma cesárea, tudo rápido, indolor e pronto”. O que me espanta é que essas mesmas mulheres que têm medo de sentir a dor das contrações, e do parto, não se lembram de que a cesárea é uma cirurgia de médio porte, onde 7 camadas serão cortadas e depois costuradas. E quando a anestesia passar? Essa mulher não vai sentir dor? Eu não sei, porque nunca fiz uma cesárea, mas a recuperação dos meus partos normais foi bem rápida.
Falta de informação
Cesárea parece um viral, sério! Já ouvi várias vezes frases do tipo: “Ah, eu vou fazer, porque a minha vizinha fez, minha colega do trabalho também e deu tudo certo” ou “meu médico disse que vai ter que ser cesárea porque... (aqui você pode escolher um dos motivos)
a) O bebê está muito grande e eu sou muito pequena
b) O bebê está com uma volta do cordão umbilical no pescoço
c) Já estou com quase 40 semanas e nada de trabalho de parto
d) Não tenho dilatação
e) Tenho mais de 35 anos
f) Já fiz cesárea antes
g) Todos esses e mais outros milhares de motivos...
Se a mulher tivesse se informado bem e contasse com a boa vontade do médico para fazer o parto normal, saberia que são apenas alguns os motivos que levam à uma cesárea realmente necessária (e que devem ser esses tais 15% que a OMS recomenda). Alguns deles: placenta prévia ou descolamento da placenta, quando a mãe tem AIDS, se o bebê está sentado ou atravessado... Mas, com todo o pré-natal a que temos acesso hoje em dia, é possível saber quase tudo com antecedência. Muitas vezes, mesmo em caso de cesárea, é possível esperar a mulher entrar em trabalho de parto e só aí realizar a cirurgia. Então, talvez não falte informação e sim informação correta.
Eu não sou médica, não sou especialista. Sou apenas uma mulher que já pariu duas vezes. Mas tenho uma tendência incrível a acreditar na natureza. Acho que podemos dar à luz de parto normal na imensa maioria das vezes. E quando não der mesmo, que bom que vivemos em uma época em que a medicina avançou tanto e podemos contar com a cesárea para salvar vidas.
Maria Flor
Maria Flor Calil é mãe de Teresa e Julieta e editora do site da Pais & Filhos. Apaixonada pela maternidade, está no lugar certo, na hora certa. Nessa coluna ela compartilha alguns pensamentos que nascem do fato de passar o dia todo editando informações sobre esse universo.
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