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Mãe, profissional e duplamente culpada
Mas o sorriso dos pequenos revigora!
No final dos anos 70, eu, com quatro ou cinco anos, já enchia minha mãe de perguntas. E uma delas era recorrente – e, talvez por isso mesmo, inesquecível: “Por que só eu tenho que voltar de perua da escola? Por que as mães das minhas amigas podem buscá-las todos os dias?”. Apesar de toda a admiração (beirando à idolatria) que tinha e tenho de minha mãe, eu me lembro perfeitamente de como eu me sentia diferente das outras crianças por ser filha de uma professora que tinha uma vida tão corrida dentro e fora de casa.
Nesta quinta-feira (15), participei da festinha de Natal na escola da Valentina. Já pensando na coluna, reparei em cada mãe que chegava com o semblante de afobação, de cansaço, de medo de perder a hora, de chegar atrasada à comemoração marcada para “pontualmente às 17h”.
Foi fácil perceber que as mães (e também os pais, obviamente) tinham sensações que oscilavam entre o alívio de estar cumprindo seu papel familiar e a preocupação com as tarefas profissionais. Isso sem falar no esgotamento visível. E eu me incluo nesse grupo, decididamente.
Olhando para as duas situações – e considerando os 30 e poucos anos que as separam – a única diferença marcante é que a rotina enfrentada pela minha mãe é hoje regra universal. É claro que a Valentina sofre caladamente pela minha ausência diária, principalmente porque sente a correria, a ansiedade, as angústias que tanto procuro camuflar. Mas certamente não se sente sozinha nesse cenário.
Conciliar trabalho e maternidade é assunto dos mais comentados, e nós mães continuamos muito distantes de encontrar a fórmula perfeita do equilíbrio. Mas, por experiência própria, arrisco dizer que a culpa que carregamos não é só pelas falhas (mesmo que todos garantam que você é perfeita!) em casa, mas também pela falta de “entrega total” ao trabalho, seja o que isso possa significar...
Tenho um emprego fixo, em período integral, que exige muita dedicação, entrega e foco. Jornalista que já percorreu redações de grande imprensa, sei valorizar as vantagens de não fazer plantões aos finais de semana e de poder ter hora certa para terminar o expediente. Mas não é só o tempo físico que conta! Assim como eu, vejo que as mães que trabalham no esquema full time carregam também outro tipo de culpa na própria relação profissional, o que gera uma sensação de dívida constante. Explico: se pego uma forte gripe e cogito não ir trabalhar, logo penso que é melhor comprometer a minha saúde, enfrentar a rotina normalmente, e me “guardar” para um dia em que precise faltar por algum motivo relacionado à Valentina.
Mãe que é mãe, além de não poder jamais ficar doente, também não pode ter coisas a resolver no banco, reconhecer firma no cartório, comprar presentes de Natal, levar o carro na revisão, atender a uma emergência doméstica... Não, isso tudo não pode. Vai que amanhã ou depois minha filha tem uma febre ou acorda indisposta, ou mesmo aparece uma nova festinha na escola? Como compartilhar tranquilamente com o chefe e com todos os colegas que, além de uma vida própria, eu sou responsável por uma outra vida ainda tão indefesa?
O lado bom de tudo isso é que a profissional que é mãe sabe que não pode perder tempo com pequenas distrações, que é melhor resolver tudo antes das emergências do dia-a-dia tomarem conta das nossas prioridades, que planejamento é o melhor remédio e, acima de tudo, que a pessoa mais importante da sua vida depende também do seu bom desempenho no trabalho para viver bem e com conforto...
Não quero aqui ficar discorrendo sobre as mais variadas teses que já tiveram esse assunto como foco. Mas acho fundamental que as mães avaliem a culpa que carregam com relação ao próprio trabalho, às expectativas por uma carreira e que, principalmente, saibam se impor. Eu sempre digo que, no ambiente profissional, os filhos não podem ser desculpa para tudo. Esse é o começo do desequilíbrio emocional das mães e é o alimento para a discriminação da maternidade. Muito mais do que uma questão de gênero, é um conflito de configurações familiares. Num contexto em que as mulheres demoram cada vez mais para decidirem ter um filho ou simplesmente não querem saber do assunto, as mães são sempre tidas como mais frágeis, problemáticas, ocupadas. É difícil mesmo, e eu ainda não encontrei uma saída...
Enquanto isso, sigo acreditando na polivalência das mães e no sorriso revigorante da minha filha...
Luanda Nera
Luanda Nera, jornalista, viveu 35 anos à espera de sua filha, a Valentina. Nessa trajetória, acumulou referências de grandes exemplos de mães, a começar pela sua própria, a Lucila. Aqui, espera dividir os conselhos úteis - os quais seguiu à risca e suspira aliviada! - e promete te fazer pensar em detalhes que podem fazer a diferença no dia-a-dia da maternidade.
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