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As mães e o trânsito

A arte de driblar a insegurança e o desconforto do trânsito

As mães e o trânsito

Entre os tantos aprendizados que a maternidade nos provoca, quem vive numa cidade avassaladora como São Paulo tem mais um desafio a enfrentar: a convivência com as crianças no trânsito. Minha filha encara a rotina caótica dos congestionamentos e das longas distâncias desde que se formava na minha barriga. Moramos na Zona Norte, trabalho em Pinheiros, costumo fazer exames em Moema e o consultório da minha obstetra fica no Brooklin. Para complicar ainda mais, meus sogros moram em Sorocaba e minha irmã, em Santos. Com este cenário nem preciso dizer que minha gravidez foi marcada por um corre-corre e por muita, muita paciência no volante.

Adoro dirigir, tenho experiência e disposição para me aventurar nas ruas da cidade e nas estradas. Sempre valorizei a liberdade de guiar um automóvel sozinha, livre, e sempre fiz dos meus carros uma extensão do meu banheiro, do meu armário e até da minha cozinha! Mas desde o momento em que saímos da maternidade e atravessamos São Paulo para chegar em casa percebi que dali para a frente minha relação com o trânsito não seria mais a mesma.

Durante a licença-maternidade – e depois dos naturais sustos das primeiras voltinhas – aprendi a relaxar ao dirigir com a Valentina no carro. Adorava olhar para ela pelo espelhinho e ver como reagia bem aos buracos, ao sol que a fisgava de vez em quando, ao calor da cadeirinha, aos barulhos da cidade. E cheguei a enfrentar longas estradas com ela...

Sete meses depois do parto, os exatos 13,2 km que separam minha casa do meu trabalho se multiplicaram por 1.000. Todas as minhas referências, convicções e noções de distância desmoronaram. Antes, era capaz de construir uma tese provando as vantagens de morar em um lugar arborizado, próximo à Serra da Cantareira, em uma casa grande, com terraço e fogão à lenha. Mesmo que isso me custasse algumas horas no trânsito. Agora, tudo mudou: topo me desfazer de metade das minhas coisas se precisar mudar para um lugar menor. Topo ficar sem garagem, topo até ficar sem o carro. E estou batalhando por isso... Na mesma semana em que voltei a trabalhar decidimos colocar a casa à venda. Sonho dia e noite em fechar o negócio.

Para minimizar os efeitos do trânsito na minha vida e, principalmente, na da Valentina, tive que fazer escolhas difíceis e contei com o apoio inclusive dos meus chefes. Mudei meu horário de trabalho – entro e saio uma hora mais cedo – na tentativa de fugir do pior do rush. Mas não abri mão de matricular a Valentina em um berçário que fica a alguns quarteirões do escritório. A escola é ótima, e é uma baita tranquilidade saber que ela está pertinho de mim. Só que não é fácil acordá-la todos os dias super cedo, mesmo nas épocas mais geladas e chuvosas. Isso sem falar na facilidade que ela tem em enjoar depois do café da manhã, o que me rendeu uma experiência incrível em parar o carro no meio de grandes avenidas, limpar o vômito, trocar a roupinha, sacar um bicho de pelúcia “reserva” e animá-la até a escola. Também aprendi a me contorcer para fazer cócegas, resgatar brinquedos do chão, arrumar a cadeirinha... E, na fase em que ela se deslumbrava ao bater palminhas, cheguei a passar quase 40 minutos cantando “Parabéns a você” ininterruptamente...

Mães de grandes cidades têm uma dose extra e cavalar de culpa e ansiedade. A pressa e a tristeza por ver minha filha sair de casa com fome para não enjoar e passar horas tentando se distrair no carro com um companheirismo impressionante me faz também desrespeitar algumas regras da boa disciplina. Louca por comida, Valentina já sabe que eu carrego um pacote de bolachas (de arroz integral, sem açúcar nem sal!) para os momentos mais críticos. E antes de eu abrir a porta do carro ela já começa a apontar para elas. Juro que tento resistir, mas é difícil ser dura com uma filha tão, mas tão compreensiva como a que eu tenho. Também tentei por muito tempo não deixá-la viciada nos bonecos e bichos de pelúcia (mais precisamente nas etiquetas deles), que ela usa para chupar o dedo até pegar no sono. Mas como impor comportamentos a um bebê já que eu mesma a coloco em situação de tamanha insegurança e desconforto??

Decidi escrever sobre as amarguras de quem passa boa parte do tempo com os filhos no trânsito nesta segunda-feira, depois de enfrentarmos duas horas no congestionamento até chegar à escola da Valentina. Totalmente conformada, ela praticamente não reclama mais. Canta sozinha, “conversa” com seus bichinhos, dá tchau para quem passa na rua e me manda beijos o tempo todo. Confesso que isso não me deixa menos triste, sei que ela está tentando me tranquilizar, mesmo que inconscientemente. E meu coração aperta ainda mais quando, na esquina da escola, ela adormece feliz, segundos antes de ser novamente acordada...

Luanda Nera

Luanda Nera

Luanda Nera, jornalista, viveu 35 anos à espera de sua filha, a Valentina. Nessa trajetória, acumulou referências de grandes exemplos de mães, a começar pela sua própria, a Lucila. Aqui, espera dividir os conselhos úteis - os quais seguiu à risca e suspira aliviada! - e promete te fazer pensar em detalhes que podem fazer a diferença no dia-a-dia da maternidade.

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