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A filha fica doente e a mãe é quem precisa se recuperar

A filha fica doente e a mãe é quem precisa se recuperar
Difícil manter o controle nestas horas

Entre todas as lições que a maternidade nos impõe, uma nova relação com o tempo é uma das mais intrigantes. Quando a Valentina nasceu, os dias e as noites eram intermináveis. Os primeiros dias se desenrolavam em velocidade e intensidade totalmente desconectadas do mundo real. Eu vivia em um universo paralelo, como todas as mães parecem mesmo viver.

Penso nisso porque o crescimento das crianças definitivamente não é linear e nem um pouco lógico. Mãe de uma menina linda de 1 ano e 9 meses, muitas vezes me pego conversando com ela como se tivéssemos a mesma idade, a mesma experiência, numa intimidade sem fim. Noutras vejo que ainda tenho um bebê em casa, com todas as delícias e as fragilidades que o início da vida nos impõe.

E, nessa trajetória, uma pedrinha no caminho pode fazer balançar toda a segurança conquistada e reconhecida em tão pouco tempo. Contrariando a minha fértil imaginação e para minha grata surpresa, nunca fui uma mãe neurótica com a saúde da minha filha. Cuidadosa como se deve ser, consegui equilibrar bom senso com tranquilidade. Um objeto sujo na boca, um passeio ao ar livre mesmo em dias mais frios, uma viagem com espírito mais aventureiro, nada disso chegou a me tirar o sono ou agravar minha culpa como mãe. O resultado foi um bebê incrivelmente saudável, até então imune às oscilações no clima, à poluição ou mesmo ao convívio com dezenas de crianças na escola.

Mas, nas últimas semanas, uma pneumonia (leve) seguida de uma bronquiolite fizeram com que eu levasse minha filha ao pronto-socorro duas vezes em menos de 20 dias. E, mais do que isso, reacenderam em mim os medos e a consciência da fragilidade da vida. Encarei a pneumonia como deveria, com todos os cuidados e dedicação necessários, mas sem me deixar abalar. Cancelei programas e compromissos profissionais sem lamentar, reconhecendo a doença como normal e corriqueira. Depois, quando voltei ao hospital assustada por uma crise de tosse, fui surpreendida com o diagnóstico de bronquiolite e, o pior, pela notícia de que teria que aplicar um bronco dilatador na minha filha. Caso contrário... bem, eu confesso que preferi não discutir com a médica sobre as consequências, já imaginando o que isso implicaria. Lembrei-me das minhas crises de bronquite na infância e o quanto meus pais e avós sofreram com isso. O fato é que me rendi à medicina alopática e passei um dia inteiro na tensão de ver minha filha melhor e sem querer imaginá-la internada. Foi por pouco. Conseguimos a alta e cheguei em casa com uma sensação de alívio enorme.

Vendo minha filha reagir tão bem e, para a surpresa da médica, ser dispensada da internação, me fez pensar no quanto ficamos refém das avaliações assoberbadas e exageradamente precavidas nos atendimentos de emergência. É claro que o final dessa história poderia ter sido muito mais trágico se eu não tivesse corrido com minha filha para o pronto-socorro. Mas passei um dia todo analisando as reações dos pais que chegavam por lá e tenho certeza de que é quase um caminho sem volta. O pronto atendimento dá o conforto e o alívio que nós tanto queremos. Mas também nos deixa dependentes, nos faz acreditar que uma nova visita é questão de tempo. Depois de três horas entre consultas e sessões de “bombinha”, Valentina morria de fome. Médica e enfermeira insistiam que ela deveria primeiro fazer a inalação. Eu, a mãe, defendia que ela precisava – e queria – comer. A percepção clínica da médica diante daquela menininha já rouca de tanto chorar e com falta de ar era a pior possível. E eu insistia que boa parte do choro era por fome. Valentina pedia comida e dizia que estava com sono. Depois de muito argumentar, finalmente liberaram um lanchinho para ela. Foi como uma injeção na veia, nem a médica acreditou na mudança de comportamento. Eu sabia, mas ali não tinha voz. Mais tarde, depois de almoçar e de dormir um pouco, Valentina era outra criança. E por isso teve alta.

Essa história da comida ficou na minha cabeça como um exemplo do ambiente criado nos prontos-socorros, mesmo nos mais conceituados como o que procurei. Valentina ficou ótima, a crise não durou mais do que três dias. Mas e a festinha do Dia das Mães que perdi? E o desespero por ver minha filhinha com roupa de hospital deitada na sala de observação? E o show que ela iria com as primas e os tios e que há tempos esperávamos?  O fato é que, querendo ou não, fiquei contaminada por essa sensação ruim de que uma respiração mais ofegante pode indicar uma infecção, uma tosse pode ser sinal de pneumonia ou, ainda, que um dia mais gelado ou seco pode colocar todos os planos em risco... Sei que Valentina continua com uma saúde incrível, comprovada pela rápida recuperação nos dois episódios. Só resta agora eu conseguir renovar a confiança no meu instinto materno, a segurança na força das crianças e na nossa incrível capacidade de sobrevivência. Para isso não tem remédio que dê jeito...

Luanda Nera

Luanda Nera

Luanda Nera, jornalista, viveu 35 anos à espera de sua filha, a Valentina. Nessa trajetória, acumulou referências de grandes exemplos de mães, a começar pela sua própria, a Lucila. Aqui, espera dividir os conselhos úteis - os quais seguiu à risca e suspira aliviada! - e promete te fazer pensar em detalhes que podem fazer a diferença no dia-a-dia da maternidade.

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