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Ser mãe: basta o coração?

Disseram-me que para ser mãe bastava ter coração. Será?

Ser mãe: basta o coração?

Olhemos ao redor. Na sala da avó a criança ensaia os primeiros passos entre a mesa de vidro e os vários bibelôs. No parquinho, a criança se balança e se pendura sem noção de perigo, enquanto a mãe, quase sem respirar, fica em alerta caso precise agarrá-la no ar. Na porta da escola, a criança chora, a mãe a abraça e conversa baixinho. No campeonato de futebol, o menino passa o jogo no banco de reservas e a mãe continua lá torcendo e fazendo sinal de positivo. Na lanchonete, a garota chora e a mãe a consola, enquanto avisa que ser rejeitada pelas amigas faz parte da vida. Na apresentação da escola, a mãe se posiciona bem na frente e tenta não transparecer o medo de que o filho venha a esquecer o texto. No passeio da escola, a mãe acena e manda beijos ao filho que está na janela do ônibus agarrado a sua mochila.  Do trabalho, a mãe liga para ver se o filho chegou da escola, mas o celular toca, toca, toca e nada. Na porta do shopping, a mãe deixa o filho que pela primeira vez ficará sozinho com os amigos. Ao levar à balada, a mãe olha a filha e as amigas já tão crescidas e sente um grande frio na barriga ao ver o aglomerado de gente e de “lobos”. No aeroporto, a mãe vê o filho entrando no embarque e desaparecendo rumo a outro país onde fará intercâmbio. Na faculdade, no primeiro emprego, no altar, na maternidade...

Basta coração?

Não sei com vocês, mas a maternidade me fez bem mais ansiosa. Haja, sim, é estômago! No dia a dia, várias são as situações de riscos, as situações em que os filhos ficam expostos ou que sofrem. Quantas vezes não nos sentimos impotentes, inseguros e desejosos de tomarmos o seu lugar e dor? Quantas vezes buscamos poupá-los? E em quantas paramos de respirar ou esquecemos de nós mesmos? Só o coração? Creio que não.

Ser pai ou mãe requer o corpo inteiro, todos os órgãos em ação. Requer conflitos, medos, desejos entre razão, corpo, emoção. Haja estômago, fígado, pâncreas, pulmão! Haja cérebro e circulação! Bate coração, mas isto não basta.

Se usássemos só o coração, provavelmente guardaríamos os filhos em redomas, eternamente superprotegidos de tudo e de todos. Todavia, ironicamente, a superproteção acaba por desprotegê-los, pois não favorece as crianças desenvolverem capacidades, habilidades, competências necessárias ao bem viver. Melhor acalmar o coração, domar a emoção e deixar o filho viver, por maior que seja nossa vontade de controlar a sua vida e de protegê-lo de sofrer e de se expor. Ame-o e cuide sim, mas não o sufoque impossibilitando-o de construir o seu ser.

Uma dica? Que tal dominar a ansiedade, respirar, contar até dez, até cem, até mil? Depois, respire de novo, e de novo. Isto ajuda a acalmar! E, por falar nisto, neste momento, minha filha está em outro estado fazendo vestibular. 1, 2, 3... 1050! Inspiro, expiro, inspiro... Alguém tem um antiácido?

Ligia Pacheco

Ligia Pacheco

Lígia Pacheco é mãe de Gabriela e Camila, autora do blog FILHOsofar, professora, palestrante e pesquisadora da educação. Nesta coluna, parte de histórias do cotidiano para discutir conhecimentos, trazer dicas e sugestões que colaboram com a educação entre Pais e Filhos.

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