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Não transforme o Papai Noel em um trauma
Busque entender ‘o que’ e ‘como’ o seu filho pensa
Conheço uma pessoa que detesta Papai Noel e encontra muita dificuldade em manter esta fantasia nos filhos e sobrinhos. Veja o que aconteceu. Quando era criança diziam que o Papai Noel só trazia presentes para quem havia se comportado muito bem durante o ano todo. No início de Dezembro, escrevia uma cartinha pedindo o que queria, e a ansiedade durava dias, até a noite em que, na árvore junto ao presépio, os pacotes apareciam. Por cinco anos consecutivos, pediu a mesma coisa, mas nunca foi atendida. Papai Noel sempre deixava outro presente no lugar, e ela concluía que seu comportamento precisava melhorar. Assim, empenhava-se ano após ano, Natal após Natal, mas o presente pedido nunca chegava. Não sabia se tinha mais raiva do Papai Noel ou dela própria por não conseguir merecer o que pedia. Mas, afinal, sabe o que ela pedia? Um chimpanzé de verdade!
Hoje ela compreende as trocas do presente, mas lamenta os anos de frustração e sofrimento que teve, além do abalo de sua auto-estima por achar que não alcançava o comportamento supostamente adequado. Afinal, o presente pedido só vinha a quem merecia. Mas, tudo isso poderia ter sido evitado, se os seus pais compreendessem um pouco mais da infância.
A criança pequena não diferencia a fantasia e a realidade, como a maioria de nós adultos. Para ela, o Papai Noel não é um homem fantasiado. Ele é real. E isto vale para tudo. Se a criança monta em um cabo de vassoura e sai trotando, para ela, aquilo é um cavalo. Por que acha que é tão difícil tirar-lhe a fantasia de princesa ou de Super Homem? Porque em sua perspectiva ela é a personagem. Por isto, todo cuidado é pouco, principalmente com os personagens que voam. Todavia, é muito bom alimentar este lado na criança, pois a desenvolve em vários aspectos. Como por exemplo, a função simbólica e a imaginação, fundamentais ao processo de alfabetização.
No caso do chimpanzé, o que os pais poderiam ter feito? Primeiramente, deveriam ter pensado pela perspectiva da criança. Isso é muito importante em qualquer situação. Os filhos não pensam como nós, aliás, ninguém. Poderiam ainda ter dado um retorno a ela, justificando o porquê o Papai Noel não trouxe o presente escolhido. E aí há várias maneiras de fazer. Uma carta do velhinho explicando a troca, uma “aula” sobre o habitat dos animais, uma conversa de “criança” para criança, entre tantas outras possibilidades. Enfim, não basta trocar o presente. Para a criança, a troca não a satisfazia, pois ela via o velhinho como real e ainda associava a troca ao mau comportamento. O que aprendemos com isso? Que é preciso muito cuidado, pois a cabeça da criança não processa da mesma maneira que a nossa. Investigar e “entrar” no mundo dela é sempre bom e necessário.
Uma dica? Busque entender ‘o que’ e ‘como’ o seu filho pensa. Isso ajuda a acertar e a evitar traumas ou danos presentes e futuros. Isso vale para o Papai Noel, isso vale para tudo, isso vale para todo o sempre.
Ligia Pacheco
Lígia Pacheco é mãe de Gabriela e Camila, autora do blog FILHOsofar, professora, palestrante e pesquisadora da educação. Nesta coluna, parte de histórias do cotidiano para discutir conhecimentos, trazer dicas e sugestões que colaboram com a educação entre Pais e Filhos.
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