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Este medo não pertence ao seu filho
Não deixe seus medos contaminarem seu filho
“Meus pés estão me matando!”, ouvi ao longe uma voz fina. A reclamação vinha de uma criança de 6 anos que acompanhava uma trilha bastante puxada para a Praia de Jeribucaçú em Itacaré/BA. Achei graça no comentário senil, e seguimos. Mas o menino aguentava bem, e era o único a falar nas intermináveis subidas pela Mata Atlântica. Sobrava-lhe oxigênio.
Antes de alcançar a praia, pegamos a trilha da direita e rumamos à cachoeira da Usina para refrescar, ganhar massagem das águas e seguir por mais uma hora rumo à praia deserta. No entanto, percebi que o menino não se aproximou do rio, nem da piscina que se formava antes da queda d’água. Chamei-o para entrar e ofereci ajuda. Mas ele respondeu: “Eu não nasci para nadar.” Novamente achei graça no comentário e segui a explorar sua resposta. Questionei-o: “Qual foi o primeiro lugar onde você viveu e se desenvolveu?” Depois de algumas conversas ele chegou a conclusão de que sua vida iniciara-se na água dentro da barriga da mãe, mas que tinha “os olhos muito sensíveis” para nadar. Insisti mais, mas a mãe interveio e disse: “Ele tem medo de tudo!” E repetiu esta frase em vários momentos do passeio.
Todavia, notei que os pais também não entravam na água. A mãe sentou-se numa pedra segurando o menino e o pai ficou na beira da piscina formada pelo rio, enquanto apreciavam os que enfrentavam a turbulência da queda d’água. Conversando depois com eles, a mãe confessou que detestava água, não sabia nadar, nunca havia feito atividade física e acrescentou: “Eu fui aquele tipo de criança que nunca teve um corte ou quebrou algum osso. Tenho medo de tudo.” E, sem perceber, continuou a cada novo desafio da caminhada, a reforçar o seu medo no seu filho, desencorajando-o a vivenciar as novas experiências. E assim ele fez: pouco explorou da diversidade do lugar.
Fiquei a pensar no quanto a criança nasce sem medos e o quanto vamos, sem perceber, repassando a ela os nossos medos e “neuroses” criados nas nossas experiências de vida, e que são só nossas. E, nem precisa denunciar. Nossas atitudes e falas corporais falam por nós, e tendemos a contaminar os nossos filhos e a atrapalhá-los nas experiências e no desenvolvimento.
No dia seguinte, explorávamos de carro alguns caminhos inusitados e altamente atoláveis em busca de bromélias gigantes e lagoas naturais no areal da Península de Maraú. Quando me vi, estava agarrada ao carro, toda contraída, temendo que ele escorregasse ou atolasse no meio do nada. Meu corpo escancarava minha angústia e medo a cada cratera e acelerada. Quando ouvi meu marido dizer: “Calma! Assim você vai passar seu trauma para as meninas!” E ele tinha razão. Foi mais fácil enxergar a mãe na cachoeira transferindo seu medo, mas, inconscientemente, eu estava a fazer o mesmo. Respirei fundo, busquei a calma e comecei a controlar minhas reações e medos.
Uma dica? Observe-se sempre, verifique seus medos e não deixe que eles te domem, ceguem e venham a pertencer também aos seus filhos, atrapalhando seus desenvolvimentos.
Ligia Pacheco
Lígia Pacheco é mãe de Gabriela e Camila, autora do blog FILHOsofar, professora, palestrante e pesquisadora da educação. Nesta coluna, parte de histórias do cotidiano para discutir conhecimentos, trazer dicas e sugestões que colaboram com a educação entre Pais e Filhos.
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