Micaela Góes
Confira a entrevista de Micaela Góes sobre como é a rotina com gêmeos
Ela aprendeu a ser organizada com Dona Risoleta, sua avó paterna, mas a profissão de Personal Organizer veio bem mais tarde, com uma ajudinha da comadre, a atriz Camila Pitanga. Há um ano e meio, com o nascimento das gêmeas Lara e Julia, em vez de sua vida virar caótica, ficou ainda mais organizada. Mas como? Planejando, sempre. Na TV, dá dicas práticas e preciosas no programa Santa Ajuda, no canal GNT.
Por Mariana Setubal, filha de Paulo e Cidinha
Você sempre foi organizada, desde criança?
Sempre fui. Mas eu não achava que isso era uma coisa diferente. Minha mãe é assim, eu acho que a organização fez parte da minha formação. Por exemplo, a minha avó paterna (Dona Risoleta) tem coisas na casa dela que estão lá desde que eu sou criança. Existe na família um instinto de preservar as coisas, de cultivar. Forra, reforra, reforma, cuida, e as coisas duram. Eu só fui perceber que isso era um diferencial e que poderia ser um serviço, já adulta. A Camila Pitanga, que é minha comadre, me pediu uma ajuda pra organizar a casa dela. Ela falou “eu não tenho tempo de fazer, não sei fazer e eu preciso de ajuda, porque eu preciso organizar, está um caos aqui!” Aí, eu falei “olha, eu vou te ajudar, mas não sei se vai dar certo, porque eu nunca fiz isso pra ninguém”. Arrumei os armários, o closet, a cozinha, organizei as entregas, as compras, a despensa, a rouparia. Fui organizando um sistema de funcionamento da casa dela que, quando acabou, era uma engrenagem que funcionava sem ela ter que estar ali. E a partir dali eu comecei fazendo, ela me indicou pra um, que me indicou pra outro. E lá se vão quase sete anos que eu faço isso. É natural, eu olho e penso “gente, mas por que isso não está assim?” Quando venho para São Paulo, fico na casa de uma amiga, e a nossa brincadeira é essa, a gente fica mudando a casa. Depois chegou a Adriana, pra ser minha sócia, e a gente se estruturou melhor como empresa. Os serviços que vão surgindo são sob a demanda dos clientes. Tem gente que quer que treine os empregados, que quer que formate o sistema de funcionamento da casa, que quer só organização...
E tem uma procura grande?
Muito grande! Porque eu acho que é uma coisa que se encaixa na nossa vida de hoje. O maior vilão pra desorganização é o tempo, que a gente não tem. A gente trabalha o dia inteiro fora, e quando está em casa também quer ter tempo de estar com os filhos, de aproveitar a casa... O tempo realmente é o que a gente tem de mais escasso hoje em dia. E é um serviço que se encaixa muito nessa necessidade atual.
Você já teve trabalhos em que arrumou quarto de criança?
Já. A coisa que eu mais vejo, que é o maior vilão da desordem, é a gente juntar muita coisa que não precisa. E quanto mais eu trabalho com isso, mais sintética eu fico. Eu perdi um pouco o ímpeto consumista de querer coisas. Pra você ter muita tralha, você tem que ter espaço. Pra ter espaço, tem que trabalhar mais, pra poder ter mais dinheiro, pra poder ter um apartamento maior, pra poder ter mais espaço, pra poder guardar mais tralha. E vai precisar de mais empregado pra arrumar, pra você administrar. E eu quero o caminho contrário. Eu quero menos trabalho. Isso é o que eu mais vejo, até em quarto de criança. Por exemplo, as minhas filhas. Elas fazem aniversário e ganham muito presente. Eu não dou tudo ao mesmo tempo. Seguro um pouco, dou um mês depois, arrumo uma ocasião pra dar mais. Ou então eu troco. Eu tenho uma bolsa que levo pra pracinha, cheia de brinquedos. Elas já estavam há meses brincando com os mesmos. Aí, eu tirei aqueles, passei adiante, e substituí por outros. Se você dá 30 brinquedos juntos, não tem a menor graça. Natal é a mesma coisa, eu seguro um pouco, aí dou, substituo, para valorizar o que tem. Eu acho que, quando você tem menos, valoriza mais. É melhor ter menos e de melhor qualidade.
É você mesma que pensa nas dicas do programa?
É, porque o programa funciona da seguinte maneira: eu apresento e a consultoria de conteúdo é a Reformular, que é a minha empresa. Então, eu e a Adriana, minha sócia, escolhemos as locações, pensamos nas dicas, escolhemos os produtos. A gente testa tudo o que indica no programa, até as coisas de tirar mancha.
E como foi descobrir que você estava grávida de gêmeos?
Foi um susto, porque foi natural, eu não fiz tratamento... Mas eu descobri logo na primeira ultrassonografia. A princípio eu tive um impacto, a primeira questão que vem é de ‘será que eu vou dar conta?’ Porque você se prepara pra ter um, de repente você tem dois! O orçamento é dobrado, a disponibilidade é dobrada, o trabalho é dobrado. Mas aí, durante a gravidez, você tem o tempo de ir realizando isso. No meu caso foi absolutamente incrível. Primeiro porque eu já tive filho mais velha, tenho 36 anos. Então, ia ser mais enrolada a logística de ter um segundo filho. Mãe de gêmeos aprende a aceitar ajuda rapidamente. Se chega uma visita na sua casa e diz ‘você quer...?’, você responde: ‘Quero! Segura aqui um minutinho que eu vou ao banheiro’. Então, desgarra logo. Mãe de gêmeos é sem frescura. E você baixa o seu nível de exigência. Porque quando a gente é mãe de primeira viagem tem aquele compromisso com a perfeição, de tudo ser absolutamente voltado pra criança... E quando você tem dois, faz o que é possível. Eu acho que isso é muito legal, tanto pra mãe, quanto pra criança. Para mim, que sou perfeccionista obsessiva, tenho TOC, isso foi muito rico. Eu sou muito tranquila: caiu, levanta.
Elas são idênticas?
Não, são bivitelinas. Elas têm as personalidades muito diferentes. Conforme crescem, vai individualizando. Isso é uma questão que eu tinha muito pra mim quando descobri que eu ia ter duas meninas. Eu fiquei preocupada com essa questão da individualização. Uma gosta mais de brócolis, outra gosta de cenoura, uma não gosta de usar body porque gosta de mexer no umbigo, a outra não se incomoda... Então você vai percebendo as particularidades.
Você gosta de vesti-las iguais?
Não, nunca. Às vezes eu até ganho duas roupas iguais... Mas nunca coloco ao mesmo tempo. Já aconteceu de vestir parecidas, em cores diferentes. Uma vez eu coloquei; pra nunca mais, foi um incômodo pra mim. Acho estranhíssimo, porque você homogeiniza, e elas são duas! A tendência de quem tem gêmeos é fazer um ‘dois em um’, mas não são, né?
Como você faz pra se manter organizada com gêmeos?
Olha, faz parte da educação delas desde já. Então, acabou de brincar, guarda. Isso eu já comecei desde agora. Outra coisa é ter uma vida sintética. A minha casa é pequena e eu não tenho muitas coisas. Na medida em que elas vão crescendo, eu vou sempre eliminando a etapa anterior. De tempos em tempos eu tiro roupa, tiro brinquedo, tiro os utensílios que elas já não usam mais. Isso faz com que eu não mantenha em casa o que eu não preciso. Outra coisa é tudo ter o seu lugar. Então tem o lugar de brincar, o lugar de ver filme... O conceito de organização deve fazer parte da educação porque isso vai tornar um adulto mais organizado. Sem dúvida, a rotina é o maior regulador da criança. E a segunda coisa são os códigos. Ali é o lugar de comer; aquele é o lugar de escovar os dentes. Na hora de escovar os dentes, senta nesse banquinho. Eu fui criando dentro do nosso espaço os lugares das atividades. Isso mantém a organização interna delas. Porque isso vai dando a regulação de que horas são, de qual é a coisa que vem agora. Criança gosta dessa previsão, né? Por exemplo, uma brincadeira que eu faço e que elas amam: depois que trocam a fralda, elas gostam de pegar a fralda suja e jogar no lixo. Eu procuro que a organização vá entrando no cotidiano delas de uma forma engraçada.
Você acha que ficou menos organizada depois que elas nasceram?
Não, eu acho que eu fiquei mais organizada. Porque o fato de você ter gêmeos também requer mais organização. Se você planeja, consegue levar menos coisas. E, no caso delas, isso faz muita diferença. A bolsa de passeio, por exemplo, eu já deixo meio pronta. Já tem o trocador de fralda, um nécessaire com repelente, protetor solar... Tem sempre uma emergência básica, um cicatrizante, eu tenho um kit que já fica na bolsa de passeio. E tem uma coisa que eu vejo muito no meu trabalho com organização, que é assim: quando você tem a ferramenta certa pra aquele serviço, o serviço é mais fácil. Quando a gente está grávida e olha aquelas lojas de produtos de criança, fala “meu Deus do céu, por onde eu começo?” Mas, na realidade, tem um tipo de produto, um tipo de coisa pra cada situação, que em muitos casos te facilita.
Qual você acha que é o mais fantástico?
Conheço todos os tipos de coisa de carregar. Quando elas eram bebezinhas eu usava um sling. Hoje em dia, uso a kepina, que é triangular, você passa no ombro e a criança fica sentada. E usei canguru também. Eu fui encontrando recursos pra carregar as duas. Não existe um sling pra dois, então eu precisava ter um sling para uma e um braço para a outra. E ainda, de preferência, sobrar um braço livre pra abrir a porta...
Como foi amamentar as duas?
Eu tive uma experiência muito feliz com a amamentação das minhas filhas. Eu consegui amamentar até os cinco meses exclusivamente. Tive muito leite. Às vezes, quando precisava, eu tirava leite pra deixar pra elas. E elas mamaram até um ano.
Como você fazia pra amamentar?
Ao mesmo tempo. Quando elas eram bebezinhas, colocava por baixo do braço, segurava as cabeças nas mãos, uma de cada lado. No início, até eu conseguir me organizar nessa posição, ter conforto na mamada e tudo... Não é assim instantaneamente. Me lembro do primeiro segundo em que elas mamaram, eu falei ‘caramba, é muito assunto pra dar conta’, porque você tem que encaixar o bico no peito, segurar a cabeça, segurar o gorrinho, segurar o cobertor, era muita, muita coisa! Mas foi muito natural pra mim o processo de amamentação. Passei aquele período do colostro, que desce no peito, que dói, que empedra, então, até engrenar... É um processo difícil, eu acho que isso tem que ser dito, porque todo mundo fala 'amamentar é maravilhoso'. Não, o início é muito difícil. Mas é possível. Não há o que temer, as coisas acontecem, se você tem tranquilidade, se você é a fim de que role, rola. Então, no início era assim, eu tinha uma boa almofada, uma poltrona, me acomodava bem. Eu precisava de ajuda do meu marido pra montar a mamada e depois pra tirar. Aí, elas foram crescendo e eu colocava as duas de comprido, então elas ficavam juntas pelo meio do corpo. Depois, já ficavam sentadinhas.
No ano passado, você escreveu para a Pais & Filhos sobre o sumiço da babá. Como você se virou?
Nessa situação eu aprendi a não depender. Desde que nasceram, como eu não tive enfermeira, aprendi de cara a dar conta das duas. Tudo meio em série, banho em série, quando elas comiam eu dava uma colherada pra cada uma.
Como você consegue ser tão calma com gêmeas?
Eu acho que isso começou com o nascimento delas. Elas nasceram quando eu estava com 35 anos, a maior parte dos meus amigos já tinha filho, do meu grupo eu fui uma das últimas. E isso foi uma coisa que eu observei muito. Eu acompanho os filhos dos meus amigos e eu vejo a diferença dos que são filhos de pais calmos e dos que são filhos de pais histéricos. Então, eu acho que o meio, o ambiente, a forma como os pais e a família se relacionam com a criança interfere na formação. Acho que isso foi natural pra mim, mas aconteceu com o nascimento delas também. Eu me planejei muito pra ter filho. E me voltei completamente pra elas, em todos os sentidos, de ficar sem trabalhar nesse período, de organizar meu contexto familiar, do meu marido segurar a estrutura. Juntei dinheiro antes de engravidar, planejei a minha gravidez pra poder estar pra elas. Então, eu fiquei mesmo mais tranquila. A minha realidade é essa. Quando eu saio com uma só... Gente, a facilidade que é sair com um bebê! Um bebê e uma bolsa, sobram quase duas mãos livres! Eu acho que isso me deu uma tranquilidade, porque eu percebi que ou eu problematizava o fato de ter duas filhas, ou simplificava! Escolhi mesmo simplificar. Eu sou calma, o Pedro (marido da Micaela) é calmo... As crianças aprendem mais com o não dito do que com o dito.
Perguntas Pais e Filhos
Família é tudo, concorda?
Eu acho. A família é a raiz. Eu acho que a coisa mais importante pra formação de um ser humano é que você tenha raízes fortes, pra ter asas grandes. Sem isso, nada feito. Não adianta você ter asa e não ter raiz, não adianta ter raiz e não ter asa.
A infância passa muito rápido; como aproveitar melhor?
Eu acho que com qualidade de presença. O tempo é o nosso bem mais precioso hoje em dia. Quando estiver com eles, especialmente se o seu tempo for curto, esteja presente, brinque, se ocupe da criança! E também aproveitar todas as fases sem tanto saudosismo.
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