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Julia Barroso

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Julia Barroso

A menina da coluna torta praticou balé e natação, beijou na boca, morou sozinha fora do Brasil, casou, teve filho. Apesar das limitações impostas pelo problema, Julia Barroso nunca deixou de se divertir. Os truques para isso ensina em livro lançado no final de 2011, no qual fala sobre enfrentar a escoliose em plena adolescência, tentando esconder o colete sob blusas compridas de gola alta.

Por Samantha Melo, filha de Sandra e Tião

Como foi sua infância?
Eu nasci no Rio. Quando  tinha 3 anos, a gente foi morar na Grécia e na Espanha. Fomos porque meu pai era fotógrafo, e minha mãe era modelo. Ficamos lá até eu completar 6 anos. Aí voltamos para o Brasil e fomos morar em São Paulo. A escoliose foi detectada com 10, 11 anos. A gente foi ao pediatra ortopédico, porque eu tinha perna arcada e estava fazendo balé para corrigir. Ele detectou a escoliose. Fiz um raio-x e estava com 28 graus. Bastante, porque, acima de 25 graus, já é indicado colete Milwaukee. Meus pais começaram a consultar vários médicos e todos foram unânimes: eu teria de usar o colete. Mas eles ainda deram seis meses para que eu fizesse natação – para ver se estagnava. No final, foi para 32 graus antes de colocar o colete. Estava com 11 anos.

Quando soube, você se assustou?
Meu pai me chamou para viajar sozinha com ele para a Disney e lá me contou que eu teria que usar o colete. Achei isso legal, porque ele me tirou da minha rotina, da minha casa, me levou para um lugar completamente lúdico, em que eu estivesse feliz, para poder me dar essa notícia. Então, encarei numa boa. Mas, no primeiro dia em que tive de usar o tal colete, já em São Paulo, minha ficha caiu. Meus pais me apoiaram desde o começo. Aliás, minha família toda. Sempre me respeitaram muito, eu me apoiei demais nisso e nos meus amigos para passar por essa fase difícil. Acho que, quando você não tem o apoio da família para passar por isso, deve ser bem complicado.

Você tem irmãos?
Duas irmãs por parte de pai, mais novas, Carolina e Helena. Quando descobri a doença, meus pais já estavam separados. Quando a Carol nasceu, eu usava colete – e ficava com medo de machucá-la. Eu tinha 12 anos, então foi bem na fase do colete. Sou apaixonada por elas.

Que tipo de colete você usava?
Eu usava o colete de Milwaukee, que vem do pescoço, embaixo do queixo, até a bacia, pega todo o tronco e tem dois ferros atrás. Desde o início, tive de usar por 23 horas, só tirava pra tomar banho e fazer natação. É um tratamento muito difícil e muito medieval, na verdade. Você fica truncada, travada, passa 23 horas presa num negócio, imóvel, parecendo um robô.

Como foi o impacto disso na sua infância?
Foi muito difícil, eu tive de me adaptar muito. Antes, ia pro Rio de Janeiro, nas férias, ficava na rua, brincando de bola... Tive de parar de fazer isso. Até me acostumar com o colete, eu dei um tempo. Depois de um ano, fui me acostumando, até voltei a jogar bola.

E a questão da roupa?
Eu tinha muita vergonha, sempre usava blusa de gola alta. Cortava as mangas das blusas no verão. Aí, usava uma blusa embaixo do colete, para não machucar a pele, e uma de gola alta em cima. Eu não mostrava o colete de jeito nenhum. Mas não deixei de fazer nada por causa dele, eu costumo frisar muito isso. Segui minha vida, não fiquei trancada no quarto, chorando. Tinha plena consciência de que o tratamento teria de ser feito da melhor maneira possível para que tivesse um bom resultado. Eu continuei minha vida, só tive de me adaptar. Mas, de cara, já fui para a escola com o colete.

Qual foi a reação das suas amigas na época?
Minhas amigas me apoiaram muito, apoiam até hoje. As minhas melhores amigas de hoje são as da infância. No dia em que peguei o colete, fui para casa e chorava, e ligava para elas e perguntava como eu iria para a escola com aquilo. E elas me falavam que logo ia dar tudo certo. Foram muito amigas mesmo, não tinham vergonha de andar comigo.

Você acha que sofreu bullying?
Meu apelido era Robocop. Mas não era de maldade, era algo que falavam numa boa, principalmente os meninos. Mas não me sentia mal. Não falavam pelas costas. Não passou disso, nunca teve algo a mais, nunca me discriminaram por causa do colete.

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