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Ninando Arthur
A colunista conta a história da canção de ninar que quase virou pesadelo

A canção de ninar que quase virou pesadelo
Por Luiza Olivetto, mãe de Homero. Fale com ela: luizaolivetto@revistapaisefilhos.com.br
Dia desses, peguei Arthur no colo - meu neto de 3 anos -, e me preparei para cantar uma música de ninar. Escolhi uma de Caetano e Gil, linda, que me provoca uma suspensão do tempo e me remete cinematograficamente a uma cidade qualquer do interior do Brasil e a um personagem escrevendo seu destino, determinado, sozinho, partindo de suas referências, e comecei a cantar, bem devagar:
No dia em que eu vim-me embora / Minha mãe chorava em ai / Minha irmã chorava em ui / E eu nem olhava pra trás / No dia que eu vim-me embora / Não teve nada de mais / Mala de couro forrada com pano forte, brim cáqui / Minha avó já quase morta (Aqui eu preferi, sendo eu a avó de Arthur, cantar: minha avó fazendo torta…pra não virar filme de terror pro meu bichinho...) / Minha mãe até a porta / Minha irmã até a rua / E até o porto meu pai / O qual não disse palavra durante todo o caminho / E quando eu me vi sozinho / Vi que não entendia nada / Nem de pro que eu ia indo / Nem dos sonhos que eu sonhava / Senti apenas que a mala de couro que eu carregava / Embora estando forrada / Fedia, cheirava mal / Afora isto ia indo, atravessando, seguindo / Nem chorando, nem sorrindo / Sozinho pra Capital / Nem chorando nem sorrindo / Sozinho pra Capital
O fato é que, quase no fim da canção, eu completamente embalada nas sutilezas sonoras, nos alongamentos das frases, curtindo estender ao máximo as últimas sílabas, Arthur se senta em meu colo, os olhos cheios de lágrimas, o queixo tremendo, anunciando provável choro incontido, e diz: ”vó, e ele foi feliz ou não? Ele voltou pra casinha dele?”
E quando eu vi a emoção do meu Tutu, na direção contrária de um sono suave, corri a dizer: “Meu amor, ele foi muuuito feliz! Logo depois esse moço chegou ao Rio e fez ‘caminhando contra o vento, sem lenço sem documento", casou, teve três filhinhos, e fez muitas músicas lindas!”
Arthur sossegou e voltou a deitar no meu colo.
Mais tarde, quando contava essa estória a meu filho, pai de Arthur (que também prestava atenção ao meu relato), no trecho da música sobre o rapaz que partiu com a mala de couro forrada, com pano forte brim caqui, Arthur se antecipou e disse: ”mas, papai, ele foi muto feliz depois! Ele cantou caminhando contra o vento, sem lenço sem documento e teve 3 filhinhos lindos!”
Via-se claramente que Arthur queria poupar o pai do sofrimento da despedida daquele moço que ia sozinho pra capital, deixando seus pais, sua avó, sua irmã, sua casinha.
Eu abracei meu neto e beijei muito aquele rosto lindo, cheio de zelo e compaixão!
Luiza olivetto é arte-educadora, artista plástica, cenógrafa, figurinista, designer, astróloga e colabora com a revista Pais & Filhos desde 2003.


