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Por que os adultos não choram?
Livros que falam de morte nos ajudam a chorar na frente das crianças
Outro dia, minha filha mais velha, Carol, de quase 10 anos, me fez essa pergunta. Eu respondi que adultos choram, sim, mas, na maioria das vezes, preferem fazer isso longe das crianças, porque elas sempre acham que são culpadas por tudo.
"E por que os adultos choram, mamãe?" Pelas mesmas razões que as crianças. Na hora me lembrei daquela música do Legião Urbana: "Você culpa seus pais por tudo e isso é absurdo. São crianças como você"... Não somos crianças, mas é a criança dentro da gente que chora, sempre.
Há cinco anos, perdi um filho que ainda não havia nascido. As irmãs esperavam o irmãozinho curiosas e preocupadas, como toda criança. De repente, ele não estava mais lá. Certa ou errada, poupei-as de velório e cremação. Como contar algo assim para quem ainda não sabe muito bem o que é morrer? Ainda mais morrer antes de nascer? Eu tentei. Fiz o que pude. Não pude chorar na frente delas.
Tempos depois, encontrei, sem querer, um livro maravilhoso, A Preciosa Pergunta da Pata, de Leen Van de Berg. A pata perde um patinho e se pergunta para onde foi. A resposta, a velha fórmula do "virou estrela", não é o que importa e comove, mas a solidariedade dos outros bichos com aquela mãe cujo filho morreu. Quando Rafael (esse era o nome que havíamos escolhido) morreu, duas amigas me presentearam com um pingente, para que eu sempre tivesse meu filho comigo. Nunca consegui usá-lo, mas guardo com carinho, por saber que elas estavam próximas de mim nesta hora.
Como falar é mesmo difícil, a intermediação do livro ajuda. O querido Ilan Brenman acaba de organizar uma coletânea de histórias com ajuda das psicólogas do Instituto 4 Estações, especializado em luto, e a participação de vários autores, falando de situações assim. Coincidentemente, tem pato no nome: "Meu Filho Pato e Outros Contos Sobre Aquilo de que Ninguém Quer Falar".
Às vezes não é possível chorar na frente dos filhos, nem junto com eles. Seria melhor, mas simplesmente não dá. Acredito que os livros nos ajudam a falar de coisas que não temos capacidade de colocar em palavras próprias. E, se a gente conseguir, nos comovem até que a gente se permita deixar as defesas desabarem.
Sobre a culpa, dois anos depois de perder o tão esperado filho, o tão esperado irmão da Carol e da Duda, engravidei de novo, da Babi, hoje com quase 3 anos. Quando contei que estava grávida, Carol me perguntou: "Mamãe, esse bebê você não vai matar, né?" Em vez de dar bronca, fiquei aliviada. Ela não achava que a culpa da morte do irmão era dela. E eu sabia que não era minha. Não era de ninguém.
Larissa Purvinni
Larissa Purvinni foi diretora de redação da Pais & Filhos e é apaixonada por livros.


