Pais & Filhos

Bebê
GABRIEL

Seu filho também pode ser destaque aqui!

Clique e saiba como

Você está aqui: Home / Colunistas / Larissa Purvinni / Mal do século

Mal do século

Com tantos recursos tecnológicos, ler ainda é mesmo tão fundamental?

Mal do século

Brinco que tenho habilidades que seriam muito apreciadas no século... 19. Pois é. Valorizo a cultura clássica, acho importante conhecer arte, música, literatura. Ao mesmo tempo, tenho um lado positivista, na acepção mais positiva do termo: confiança nos avanços da ciência, crença de que a humanidade progride sempre e que o conhecimento é o motor para este progresso. Sinto-me em casa no Ramalhete de Os Maias, de Eça de Queiroz, ao ler o livro ou ao rever a excelente minissérie da Globo, que o canal Viva anda reprisando.

Desde sempre ouço os estudantes reclamando de ler os clássicos na escola: a linguagem é antiga, o mundo retratado é outro... Mas acho que o problema provém menos de linguagem e enredo que da imposição: tem de ler naquela hora e acabou, porque cai na prova. Como qualquer prazer, a leitura não pode ser obrigatória.
 
Confirmo isso a cada dia com minhas filhas. Carol, de 10 anos, lê, sem que ninguém obrigue, livros de até 400 páginas. Duda, de 8, a quem tento convencer que os livros sem figuras também são bacanas, resiste. Prefere os gibis. Entendo que, como percebe que quero MUITO que ela leia, rebela-se. Não tem jeito: a decisão de ler tem de ser dela, não minha. Concordo e aceito.
 
Outras vezes penso que talvez a leitura um dia não seja mais tão fundamental quanto foi, por exemplo, no século 19. Talvez seja substituída por aplicativos e games. Talvez as habilidades que minhas filhas poderiam adquirir caindo de cabeça no mundo virtual fossem mais importantes para o século em que vivemos do que ler tanto. Talvez. Não tenho segurança, mas entendo que seja possível.
 
No entanto, ao reler os versos de Dante na Comédia, escrita no século 14, sempre me emociono. Apaixonar-se é criar uma religião que tem um deus falível, escreveu Jorge Luís Borges em seus Nove Ensaios Dantescos, sobre o amor de Dante por Beatriz. Não compreendo um mundo em que a leitura desapareça. Para mim, seria um inferno. Deixemos nossos filhos apaixonarem-se pelos livros in saecula saeculorum. Amém. 
Larissa Purvinni

Larissa Purvinni

Larissa Purvinni foi diretora de redação da Pais & Filhos e é apaixonada por livros.

Comentário(s)

Enquete