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Livros e olhos verdes

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Livros e olhos verdes

Costumo dizer que meus pais me deram duas coisas muito importantes: olhos verdes e o amor pelos livros. É uma brincadeira, claro. Não acredito que ninguém seja melhor ou pior por causa da cor dos olhos, apenas gosto dos meus, uma herança genética, como meu astigmatismo, que me obriga a usar óculos. Já o amor pelos livros é algo que se constrói. E junto. Desde que nasci, via meus pais lendo. Sempre tivemos uma biblioteca em casa. Depois que meus pais se separaram, as coisas - e os livros - ficaram meio bagunçadas. Mas fiz questão de arrumar as estantes, encapar os volumes, tirar o pó das páginas, um jeito de preservar algo muito importante.

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Meu pai era desapegado das coisas materiais. A cada casa em que morava sozinho, reunia de novo imensa estante de livros, muitos comprados em sebos, que frequentamos juntos (o Brandão, no centro de São Paulo, é um dos que mais me lembro, lá encontrei Porque Lulu Bergantim Não Atravessou o Rubicon, de José Cândido de Carvalho, que ele sempre citava, mas não tinha na época). Quando se mudava, deixava tudo pra trás. E, em outro lugar, recomeçava sua biblioteca. No apartamento da rua Pinto Gonçalves, em Perdizes, os livros eram guardados em caixotes de madeira, daqueles de feira, afixados nas paredes da cozinha. Ele não tinha geladeira ou fogão, mas tinha livros ali. Literalmente, alimentava-se deles (eu adorava passar as férias, pois comprávamos nosso café da manhã na padaria da esquina e almoçávamos na Trattoria del Michelle, cujo macarrão com sete queijos é servido até hoje, embora o Michelle, que cheguei a conhecer, já tenha morrido).
Meu pai tinha olhos verdes e, uma vez na França, onde foi apresentar Morte e Vida Severina com o Tuca, na famosa montagem que ganhou o Festibal de Nancy, em 1966, foi confundido com Chico Buarque. Desde cedo, ele lia para mim os versos de João Cabral de Mello Neto. Segundo ele, que esteve com o poeta na época, João Cabral não entendia o interesse por aquele auto de Natal. O sósia de meu pai, o Chico, teria dito, ao musicar os versos para a peça: "Estraguei um monte de samba". Assim ele me contava, histórias que nunca vou esquecer.

Por meu pai, fui apresentada a Oswald de Andrade. Naquele apartamento de Perdizes, ele me lia o "Fraque do Ateu", microcapítulo de Memórias Sentimentais de João Miramar: "No silêncio tique taque da sala de jantar informei mamãe que não havia Deus porque Deus era a natureza./Nunca mais vi o Seu Carvalho que foi para o Inferno". Não me lembro de meu pai ter contado para mim histórias infantis. Estas, quem me lia era minha mãe. Para ele não havia essas fronteiras. Compartilhava comigo aquilo que amava, caminho certo para fazer com que eu me apaixonasse pela literatura, como era apaixonada por ele tal qual toda menina é por seu pai.

De vez em quando, leio para minha filha mais velha, Carol, agora com 10, e para a do meio, Duda, 7, livros que não foram pensados para serem lidos em voz alta. Nem para crianças. No momento, estou lendo Anarquistas Graças a Deus, de Zélia Gattai, mulher de Jorge Amado. Carol e Duda ouvem, deliciadas, como era a vida em São Paulo há 100 anos. Meninas da idade delas trabalhavam na tecelagem no Brás (como minha avó lituana), cozinhavam e cuidavam da casa. Na hora de tomar o bonde, a mãe ia sentada e Zélia, de pé, pra não pagar a passagem. Meu pai também era um tanto anarquista, embora se declarasse marxista e recitasse trechos do Manifesto como se fosse um poema. Nascido durante a Segunda Guerra, sofreu por se chamar Adolfo Musolino em tempos nazi-fascistas. Para compensar, seu nome do meio era Carlos, como o do velho Marx e de onde veio a inspiração para o nome de minha filha Carolina.

Há 11 anos, ele morreu, de repente, de um infarto fulminante. Até hoje, quando estou numa livraria, vejo livros que penso que ele adoraria ganhar de presente. Esse é o maior presente que ele me deixou e que agora procuro passar às netas que ele não conheceu.

Para saber mais:

Memórias Sentimentais de João Miramar, Oswald de Andrade
Esta obra é um traçado autobiográfico do personagem Miramar, contido em 163 capítulos e condensado em imagens da infância, adolescência e idade adulta.
Ed. Globo, R$ 32

Porque Lulu Bergantim não Atravessou o Rubicon
Publicado originalmente em 1971, pelo autor de O Coronal e o Lobisobem, reúne historietas - pinçadas da coluna mantida pelo autor na revista O Cruzeiro.
Ed. José Olympio, R$ 30

Anarquistas Graças a Deus, de Zéloa Gattai
A obra retrata a aventura dos imigrantes italianos em busca da terra dos sonhos e o percurso interior da pequena Zélia na capital paulista
Ed. Cia das Letras, R$ 42

Larissa Purvinni

Larissa Purvinni

Larissa Purvinni foi diretora de redação da Pais & Filhos e é apaixonada por livros.

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